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Da gravidez aos dias de hoje: o amor pela minha filha, a solidão que foi se instalando e as dores que ainda estou aprendendo a cuidar.
Senta que lá vem históriaaa…
A solidão foi se instalando aos poucos. Começou ainda na gravidez, entre medos e um isolamento que, naquela época, eu achava compreensível. Ganhou força no puerpério e chegou a momentos em que eu me senti profundamente desamparada. Hoje, ainda carrego parte daqueles sentimentos.
E existe uma frase que resume essa experiência: eu amo ser mãe da minha filha, mas também sinto a solidão.
Demorei para conseguir escrever isso sem me sentir culpada. Amo cada sorriso da Eva, cada descoberta, cada nova fase. Amo acompanhar seu crescimento, pesquisar e aprender para cuidar dela.
Se eu pudesse voltar no tempo e escolher novamente, eu a escolheria mil vezes.
Ao mesmo tempo, continuo sendo uma mulher com medos, necessidades e dores. Para contar como cheguei até aqui, preciso voltar ao começo da gravidez.
Os medos começaram nos primeiros dias
Fiz o teste de gravidez em uma sexta-feira. No domingo, tive pequenos sangramentos.
Senti muito medo.
Eu estava começando a compreender que havia uma vida se formando dentro de mim e já tinha medo de perdê-la. Fui me recolhendo, como se estivesse me escondendo enquanto tentava lidar com tudo aquilo.
Só contei para a família por volta do quarto mês. Para as demais pessoas, a notícia veio aos cinco meses.
Com o passar da gestação, os medos se intensificaram. A gravidez foi ficando desafiadora por causa dos problemas de saúde. Eu tinha medo de morrer, medo de minha filha morrer e medo do que ainda poderia acontecer com nós duas.
Também me perguntava como eu seria como mãe. Como cuidaria de um bebê? Como conseguiríamos lidar com a situação financeira e com as necessidades da nossa família?
Eu já passava muitas horas sozinha e chorava muito. Havia uma alegria imensa em esperar minha filha, mas também muitas preocupações que me acompanhavam.
O peso da dermatite atópica na minha vida
A dermatite atópica teve, e continua tendo, um peso muito grande na minha qualidade de vida.
Eu já carregava muitas inseguranças em relação à minha aparência. Ver como a dermatite deixava meu rosto, minhas mãos e meu corpo me abalava profundamente. Em muitos momentos, eu não queria que ninguém me visse.
A vergonha fazia com que eu evitasse sair.
E havia todo o sofrimento físico: irritação, coceira, cortes, descamação e sangramentos. Era um verdadeiro tormento. Eu sentia o desconforto na pele e também na maneira como me enxergava.
Na gravidez, acabei me isolando ainda mais. Como tinha vergonha de sair por causa da dermatite, eu achava compreensível permanecer em casa. Hoje, olhando para trás, percebo o quanto já havia solidão naquele período.
Quando a Eva nasceu, eu já carregava muitos medos e muito cansaço fisico e emocional. A recuperação do parto e os desafios dos primeiros cuidados vieram se somar a tudo isso.
Contando a gravidez e os meses depois do nascimento, sinto que já estou me aproximando de dois anos atravessando essas questões. Os sentimentos foram se acumulando enquanto a vida seguia.
O que é o puerpério e quando ele termina?
O puerpério é o período de recuperação e transformação que começa logo após o parto. Costuma ser associado às primeiras seis semanas, aproximadamente 42 dias. Mas esse marco não significa que toda mulher estará física e emocionalmente recuperada quando esse prazo chegar. Algumas necessidades de cuidado continuam muito além dele.
Nessa fase, o útero diminui gradualmente de tamanho, acontece o sangramento vaginal chamado lóquios, inclusive depois de uma cesárea e o corpo se recupera do parto. Quem passou por uma cesárea também precisa se recuperar de uma cirurgia, enquanto aprende a cuidar de um recém-nascido.
As mudanças hormonais, as noites interrompidas e as novas responsabilidades também podem mexer com as emoções. O chamado baby blues pode trazer choro fácil, preocupação e oscilações de humor nos primeiros dias, geralmente melhorando em até duas semanas. Já uma tristeza intensa, persistente ou que dificulta a vida cotidiana merece avaliação profissional, mesmo antes desse prazo. Não é preciso esperar piorar para procurar ajuda.
Por isso, o cuidado depois do parto precisa incluir a saúde física, a saúde mental, o descanso, a alimentação e o apoio à mãe. O acompanhamento não deve terminar simplesmente porque as primeiras semanas passaram.
Na minha história, a solidão começou antes de a Eva nascer. Atravessou o puerpério e deixou dores que ainda carrego. Contar o que veio depois também faz parte de contar como vivi esse começo.
No puerpério, eu também precisava ser cuidada
Quando voltamos do hospital, eu ainda estava me recuperando de uma cesárea. Sentia dor, sangrava, estava exausta, a pressão alta ainda oscilando, cheia de medicamentos para tomar e estava aprendendo a cuidar de uma recém-nascida e enfrentava dificuldades com a amamentação.
O Davi conseguiu trabalhar em casa por pelo menos um mês. A presença dele foi importante, mas continuávamos tentando conciliar o trabalho, a Eva e tudo o que precisava ser feito.
Quando ela dormia, muitas vezes eu precisava ordenhar, lavar a bomba, esterilizar as peças, lavar mamadeiras ou cuidar das roupas dela. O tempo da soneca passava ocupado por essas tarefas, enquanto meu corpo precisava descansar.
A casa estava um caos. Minha mente também. Eu sentia fome, dor e culpa.
Chorei com a Eva nos braços. Chorei na ausência do Davi. Chorei tentando encontrar forças para continuar cuidando dela enquanto também precisava de cuidado.
Se quiser conhecer o que vivemos antes da chegada em casa, contei nossa história em Meu parto foi antecipado e pré-eclâmpsia: entre o medo de morrer e a alegria de conhecer minha filha.
Uma lembrança que ainda me faz chorar
Poucos dias depois de chegarmos em casa, tivemos a primeira consulta da Eva com o pediatra fora da internação. Era um dia corrido. Tínhamos conseguido tomar café da manhã com muita dificuldade, entre os cuidados e os compromissos daquela nova rotina.
Nesse dia em meio ao caos e a fome, nos ofereceram comida, Davi foi buscar, sem máscara, na casa de alguem que estava doente, mas por um momento esquecemos completamente desse fato.
Depois, recebi um duras criticas questionando essa situação: estavam evitando as visitas por causa da doença, e ele havia ido buscar o pão sem máscara.
Fiquei tomada pelo medo de ter exposto a Eva a algum risco. Eu já estava com fome, dolorida e emocionalmente fragilizada, e passei a carregar uma culpa enorme por aquele episódio.
Lembro de ir tomar banho e tentar esconder meu choro no barulho do chuveiro. Não queria acordar a Eva.
Mas chorei tanto, soluçando, que o Davi conseguiu me ouvir. Ele ficou preocupado, perguntou o que estava acontecendo, e eu não conseguia explicar. Só conseguia chorar.
Durante muito tempo, aquela lembrança ficou ligada à culpa de ter precisado comer e ao medo de ter feito algo que prejudicasse minha filha.
Hoje, quando penso naquela mãe no banheiro, gostaria de olhar para ela com mais cuidado. Ela estava se recuperando de uma cirurgia, com dor, fome e medo. Precisava de orientação e acolhimento enquanto aprendia a cuidar da filha.
Os limites e o afastamento que veio depois
Depois daquele período, passei a sentir uma ausência muito dolorosa de algumas pessoas de quem esperava cuidado. Faltaram mensagens perguntando como eu estava, se precisava de alguma coisa ou se tinha conseguido comer.
Eu não esperava que alguém deixasse o trabalho ou as próprias obrigações para assumir a minha vida. Uma mensagem ou uma ligação já teria significado alguma coisa para mim.
Mais adiante, recebi uma mensagem dizendo que haviam entendido que eu queria espaço, porque eu falava sobre precisar me organizar para cuidar da Eva sozinha.
Mas, quando eu dizia que seria “eu e eu mesma”, estava tentando me preparar para uma realidade difícil. Eu continuava precisando de acolhimento.
Para mim, aquele silêncio foi vivido como abandono.
Outros conflitos surgiram em torno das visitas e dos cuidados para proteger a Eva de doenças. Até uma publicação sobre cuidados básicos com o bebê, como evitar beijos, foi recebida como uma ofensa pessoal.
E, quando falei da solidão que estava sentindo, também houve pessoas que se sentiram atingidas. Senti que até expressar a minha dor exigia uma nova explicação.
Foi depois de situações assim que decidi me afastar para me preservar. Eu já me sentia sozinha e machucada quando tomei essa decisão.
Houve momentos em que achei que não conseguiria me reerguer. Houve momentos que tive pensamentos horríveis sobre mim e culpa avassaladora. Mas minha fé em Deus me sustentou enquanto eu tentava atravessar aqueles dias e continua me sustentando nos dias de hoje.
O que continua comigo hoje
A Eva está crescendo, nossa rotina tem altos e baixos, afinal a “rotina” não segue em linha reta rs, mas alguns sentimentos permaneceram.
Passo grande parte dos meus dias sozinha com ela. Amo nossos momentos, as brincadeiras, os livros e cada descoberta que acompanho de perto. Ainda assim, a solidão às vezes me assombra.
É difícil encontrar descanso fisico ou emocional quando os cuidados continuam, o sono é interrompido e ainda há dores que não consegui elaborar. Também sigo frustrada com algumas experiências da amamentação e lidando com preocupações que vão além da maternidade.
Quando ouço que preciso aproveitar porque passa rápido, eu entendo. Também quero aproveitar. Mas há dias em que gostaria que um anjo aparecesse para me ajudar.
Em outro relato, compartilhei uma manhã em que o cansaço chegou ao meu limite: Minha única rede de apoio precisa sair para trabalhar.
Outro dia, sonhei que flutuava sozinha por um túnel, numa paisagem cinza e fria, com água correndo ao meu redor. Quando saí, havia um caminho ainda mais longo, como um rio seguindo para um lugar que eu não conhecia e parecia não ter fim.
Eu sentia medo e me perguntava: “Meu Deus, até onde eu tenho que seguir sozinha?”
Não sei explicar aquele sonho. O que ficou foi a sensação de estar perdida, tentando continuar sem saber aonde chegaria. Reconheci ali um sentimento que tenho dificuldade de colocar em palavras quando estou acordada.
O apoio que me fortalece
Em casa, compartilho os cuidados com o Davi. Minha mãe e minha irmã também se fazem presentes: elas me ligam todos os dias, e essas conversas me dão um ânimo que faz diferença e elas “distraem” a Eva quando preciso fazer algo naquele instante.
Minha irmã é mãe da Helena, que tem cinco meses de diferença da Eva. Vivemos fases próximas das nossas filhas, e isso nos aproxima ainda mais. Com ela, encontro compreensão para meus medos, dúvidas e anseios.
Esse carinho também é rede de apoio: ter com quem contar para receber escuta, acolhimento e ajuda, inclusive à distância.
Também houve uma reaproximação que quero reconhecer.
Por um tempo, eu realmente não queria retomar certas relações. Por continuar muito machucada e tento ainda me preservar. Ainda assim, sempre dizia que o tapetinho da Eva estava aberto para quem quisesse brincar com ela e estar presente, respeitando os cuidados com a sua saúde.
Pela Eva, abri espaço para uma aproximação. Uma pessoa da família retomou o contato aos poucos e hoje nos leva toda semana à fisioterapia dela. É uma ajuda concreta, que faz diferença na nossa rotina e pela qual sou grata.
O convívio foi voltando, mas ainda não houve uma conversa sobre o que aconteceu e sobre como aquilo me afetou. E com certeza nunca acontecerá.
Reconheço o valor dessa presença e, ao mesmo tempo, reconheço que continuo magoada. A reaproximação faz parte da nossa vida hoje, junto das conversas que ainda ficaram pendentes.
Gratidão e dor podem coexistir
Guardo lembranças de momentos em que me senti acolhida e amada. Reconheço o carinho e tudo o que fizeram por mim, pelo Davi e pela nossa família.
Essa gratidão faz parte da minha história, assim como a tristeza por ter me sentido desamparada quando estava tão vulnerável.
Posso reconhecer o bem que alguém me fez e falar sobre algo que me machucou nessa mesma relação. Tenho tentado aprender isso sem me culpar tanto.
O amor pela minha filha é imenso. Ainda assim, continuo sendo uma mulher com sentimentos e necessidades que não desapareceram quando me tornei mãe.
Às mães que eu não soube acolher
Viver tudo isso também me fez lembrar de outras mães às quais eu não dei a atenção de que talvez precisassem.
Lembro especialmente de uma colega de trabalho. Na época, eu trabalhava durante o dia e estudava à noite. Mais tarde, soube que ela havia ficado muito magoada porque se sentia sozinha depois do nascimento do bebê e também sentiu a nossa ausência.
Hoje, compreendo melhor como a falta de uma mensagem ou de uma pergunta sincera pode doer naquele momento.
Às mães que eu não soube acolher, quero deixar meu pedido de desculpas. Gostaria de ter percebido melhor o que vocês estavam vivendo.
Quero levar esse aprendizado comigo e estar mais atenta, inclusive quando uma mãe parece forte e diz que vai dar conta.
A mãe também merece cuidado
Tristeza persistente, perda de interesse, ansiedade intensa ou dificuldades para realizar as atividades do dia merecem avaliação profissional. A depressão pode ocorrer durante a gravidez e depois do parto, e tem tratamento.
O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH) reúne informações sobre esses sinais e sobre como buscar ajuda. Este é um relato pessoal; a avaliação de um diagnóstico cabe a um profissional de saúde.
Você não precisa fingir que está tudo bem
Se você está lendo este texto enquanto se sente culpada por não viver a maternidade exatamente como imaginou, quero compartilhar algo que eu mesma estou tentando aprender: você não precisa provar o seu amor pelo seu filho fingindo que está tudo bem.
Eu amo ser mãe da Eva. Continuo escolhendo cuidar dela com todo o amor que tenho.
Também preciso descansar, ser escutada e encontrar espaço para falar das coisas que me doem. Posso reconhecer os cuidados que recebo, pedir acolhimento e manter os limites que considero importantes para nossa família.
É por isso que continuo escrevendo. Se quiser conhecer esse recomeço, compartilhei um pouco dele em A maternidade deixou de ser apenas algo que eu pesquisava e passou a ser algo que eu vivo diariamente.
Espero que outras mães encontrem aqui espaço para falar com sinceridade sobre o que estão vivendo.
Nenhuma mãe deveria carregar a culpa de ser humana.
O que tem feito você se sentir acolhida na maternidade? Se quiser, compartilhe nos comentários.
Com carinho,
Larissa 💜
Descobrindo Juntas


